O mundo cabe nas mãos em Paris

O mundo cabe nas mãos em Paris

* Ricardo Chaves Fernandes, galerista e curador
Por volta de 10.000 a.C., desde o Neolítico, quando as primeiras sociedades agrícolas se estruturaram, a resistência atravessa o feminino como um fio contínuo na história humana. No Mediterrâneo antigo, entre os séculos VIII e II a.C., mitos como os de Gaia, Deméter e Ísis já simbolizavam a capacidade feminina de regenerar o mundo após a destruição, associando o gesto das mãos ao cuidado e à continuidade da vida.

Durante a Idade Média europeia, entre os séculos XI e XIV, mulheres camponesas preservaram técnicas artesanais e medicinais em meio a guerras, fomes e epidemias, criando redes de transmissão de saber que escapavam aos registros oficiais. No século XVIII, em plena era das revoluções, Olympe de Gouges, dramaturga, escritora e ativista política francesa reivindicou a dignidade feminina como força política, enquanto no século XIX trabalhadoras rurais e artesãs transformaram a precariedade em formas de produção cultural e econômica.

Observada em perspectiva histórica, essa resistência ultrapassa o gênero e se torna princípio vital: a capacidade de reorganizar o mundo a partir das mãos, de transformar o que é duro em gesto, o que é escasso em obra, o que é provação em futuro.

É nesse arco temporal que se inscreve a história das mulheres do Vale do Jequitinhonha, cuja organização comunitária começa a se delinear entre o final do século XIX e o início do século XX, quando a região enfrentava ciclos severos de seca, isolamento e ausência de infraestrutura.
A cerâmica, inicialmente ligada ao uso doméstico comunitário, tornou-se gradualmente uma forma de sustento e de afirmação cultural. Nos anos 1930 e 1940, precursoras que já traziam conhecimentos ancestrais, organizavam-se em vizinhanças, comunidades, reunindo suas parentes e vizinhas para partilhar técnicas de modelagem, queima e queima, criando uma pedagogia informal vinda de gerações e que consequentemente, atravessaria ainda gerações.

A partir dos anos 1960, com o fortalecimento das feiras regionais e o interesse crescente pelo artesanato popular, essas mulheres consolidaram de forma orgânica um movimento que podemos compreender como uma das mais importantes expressões de resiliência feminina no Brasil. Nos anos 1980 e 1990, já com grupos mais organizados, associações e coletivos, o Vale se afirmou como território simbólico, onde a cerâmica passou a ser não apenas técnica de sobrevivência, mas narrativa, memória e continuidade.

O processo de criação das artesãs do Vale é inseparável da composição étnica da região, marcada pela presença de comunidades quilombolas, grupos indígenas historicamente estabelecidos no território e descendentes de colonizadores europeus, formando uma população mestiça que, ao longo dos últimos dois séculos, formou, portanto, um tecido cultural singular. Essa diversidade se manifesta na técnica, na estética e na relação íntima com a terra. O que começou como produção utilitária e evoluiu para esculturas de forte carga simbólica, hoje integradas a coleções institucionais no Brasil e no exterior, como por exemplo, as diversas obras da Mestra Izabel Mendes da Cunha (1924 – 2014) – uma das maiores precursoras dos trabalhos de esculturas femininas, que fazem parte da coleção da Fundação Cartier, em Paris.

Durante o mês da arte em Paris no ano de 2026, essas esculturas chegam à galeria Ricardo Fernandes como testemunhas de uma força que atravessa séculos e continentes, revelando que a resiliência feminina continua a ser uma das mais poderosas forças do nosso tempo.

Mostramos nessa exposição, obras das artistas das comunidades do Vale do Jequitinhonha, todas as obras feitas exclusivamente com material local, barro retirado das margens dos rios e preparado segundo práticas ancestrais, transmitidas de geração em geração. As cores ocres, os vermelhos profundos, os tons cinzas minerais e as terras queimadas provenientes de pigmentos naturais extraídos da própria terra, revelam a forte existência das terras raras brasileiras e um universo mineral grande riqueza. A modelagem é inteiramente manual, construída pela pressão dos dedos e pela adição de pequenas porções de barro, num processo que exige tempo, precisão e intimidade com a matéria. A queima, tradicionalmente realizada em fornos improvisados ou fogueiras controladas, confere às peças uma resistência que ecoa a própria história da região.

Cada escultura do Vale do Jequitinhonha, carrega não apenas a técnica, mas a memória de quem a ensinou: mães, avós, vizinhas, mulheres quilombolas, indígenas e mestiças que transformaram a terra em linguagem, a necessidade em estética e o cotidiano em patrimônio.
Essas mulheres, ao fazerem isso, tomaram o mundo em suas próprias mãos, enfrentando desafios, modificando realidades através da arte e revelando, de maneira silenciosa e poderosa, a capacidade humana de moldar o próprio destino.

Lu Leal

Formada em Comunicação Social, atuou na produção do Programa “A Bahia Que a Gente Gosta”, da Record Bahia, foi apresentadora da TV Salvador e hoje mergulha de cabeça no universo da cultura nordestina como produtora de Del Feliz, artista que leva as riquezas e diversidade do Nordeste para o mundo e de Jairo Barboza, voz influente na preservação e evolução da rica herança musical do Brasil. Baiana, intensa, inquieta e sensível, Lu adora aqueles finais clichês que nos fazem sorrir. Valoriza mais o “ser” do que o “ter”. Deixa qualquer programa para ver o pôr do sol ou apreciar a lua. Não consegue viver sem cachorro e chocolate. Ama música e define a sua vida como uma constante trilha sonora. Ávida por novos desafios, está sempre pronta para mudar. Essa é Lu Leal, uma escorpiana que adora viagens, livros e teatro. Paixões essas, que rendem excelentes pautas. Siga @lulealnews

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