Tuca Andrada

Tuca Andrada

Ele saiu de Recife e veio pra o Rio,  em busca de novas oportunidades para viver de sua grande paixão:  a arte. Seu personagem mais recente na TV foi o Belizário de “Amor de Mãe”, da Rede Globo.  Mas o ator Tuca Andrada coleciona muitos outros vilões marcantes no currículo.

Lu: Você saiu do Nordeste e veio para o Sudeste aos 21 anos. O que lhe atrai mais em Recife e o que lhe atrai mais no Rio de Janeiro?

Tuca: Ah Recife foi a cidade que eu nasci, é onde está a minha família, sempre que volto pra lá me renovo, esse contato com família e com alguns amigos de lá me energiza muito. Mas o Rio é a minha casa, atualmente. Eu posso viajar pra qualquer lugar mas, quando chego aqui me sinto realmente em casa. Já moro aqui há mais de 30 anos, mais tempo do que morei em Recife. E eu gosto do Rio, gosto dos cariocas da maneira como eles vivem, gosto da cidade, acho linda e gosto da maneira de viver do carioca.  Apesar de ter grandes amigos em São Paulo, de adorar trabalhar na cidade, não consigo morar lá nem em nenhum outro lugar do mundo. Posso ir, passar temporadas, mas a minha casa é aqui, no Rio de Janeiro. 

Lu: Quais são as suas influências pernambucanas?

Tuca: Ariano Suassuna. Eu já era ator nessa época, mas fui aluno dele na Faculdade de Desenho Industrial e ele era professor na cadeira de Estética. João Cabral,  conheci um pouco depois, eu achava a poesia  dele um pouco difícil e só depois,  conheci mais, me familiarizei mais e passei a apreciar mais. Além dos grandes compositores: Alceu, Lenine, Luiz Gonzaga, essas pessoas também me influenciaram bastante.  O próprio folclore pernambucano também me influenciou muito. Pernambuco é um estado que tem muita diversidade folclórica. 

Lu: Considerando todas as dificuldades da carreira de ator, alguma vez pensou em desistir ?

Tuca: Todos os dias da minha vida eu penso, até hoje. É uma carreira muito difícil, principalmente em um país onde se valoriza tão pouco a cultura e a educação. Desde que me entendo por gente, nunca vi um governo onde a educação realmente fosse prioridade. E a saída pra esse país ou qualquer outro, é a educação. O Japão, a Alemanha, a Espanha, estão aí pra provar isso. Se o nosso povo fosse um pouco mais educado, talvez a gente não estivesse vivendo um momento tão difícil. Mas não existe interesse em mudar, é muito mais fácil governar ignorantes do que cabeças que pensam. 

Lu:  Apesar de já ter feito muita coisa na TV, você fez muito mais no teatro. É  possível viver exclusivamente dos palcos?

Tuca: É muito difícil. Eu cheguei no Rio com 21 anos e aos 25 comecei a fazer televisão. E aí, fui equilibrando entre uma coisa e outra, fazendo uma peça aqui, uma novela ali. Aí é importante juntar uma grana porque sabe que vai ter uma hora que você não vai ter a televisão. Às  vezes acontece da peça dar certo, mas é sempre muito difícil viver de teatro. E tá cada dia mais difícil porque o ingresso é muito caro pra a população e muito barato pra o produtor. Essa equação não conseguiu ser resolvida ainda e é muito difícil que seja. Teve épocas da minha vida que eu fazia três peças de teatro e vivia duro. O que deu uma equilibrada financeira foi a televisão. É muito dificil pra um ator no Brasil viver só de teatro. Em São Paulo é menos pior porque é uma cidade que tem um poder de consumo maior, tem público pra tudo. Mas mesmo assim, eu tenho muitos amigos que vivem em São Paulo e “rebolam” pra conseguir viver de teatro. 

Lu: O teatro deveria ser parte indispensável na formação educacional e cultural de um povo, mas na prática, a realidade ainda é bem diferente. Pra você, como artista, como educar uma população a valorizar mais a arte?

Tuca: Primeiro que deveria ter um acesso mais fácil, é muito caro consumir cultura nesse país. Os programas estão cada vez mais escassos e está cada vez mais difícil que a população de baixa renda consiga ir ao teatro, ao cinema, assistir um ballet, frequentar o Municipal, ouvir música clássica. E depois, precisamos de educação básica mesmo desde criança até as universidades. O ensino público está cada vez pior, os professores recebem muito pouco, é muita coisa pra mudar. Mas você só pode querer que o povo consuma cultura quando ele começa a ter acesso a cultura e a grande massa quando não consegue ter acesso. 

Lu: Misael de “A Lei do Amor” foi um personagem bastante diferente do que você costuma fazer na TV. Quais são as lembranças que guarda desse trabalho?

Tuca: Realmente Misael foi bastante diferente porque até mesmo quando eu não fazia o vilão, fazia sempre personagens angustiados. Mas ele era um cara de bem com a vida, feliz com a mulher e com a família. Só depois começaram a aparecer alguns conflitos por causa da filha. O personagem tinha uma clareza, não precisava de muito, se sentia realizado com o que tinha. Era um cara que acreditava no trabalho, na honestidade. Personagens como esse,  são muito oportunos neste momento em que vivemos uma total falta de ética, em que não podemos nos espelhar em ninguém. E ele tentava passar isso pra os filhos. Foi um personagem muito difícil de fazer porque precisava ter cuidado para não torná-lo chato. E no fundo ele não era chato, era extremamente interessante. 

Lu: Você prefere fazer os vilões?  

Tuca:  Como ator não tenho preferência, mas tenho feito bastante vilões, realmente. Primeiro porque eu não tenho carinha de anjinho, bonitinho. Talvez meu rosto tenha algo mais agressivo, de vilão. O primeiro personagem que fiz na televisão foi o Ladislau de “O Dono do Mundo” e ele era isso. E foi um estouro, então, acho que as pessoas ficaram muito com essa imagem e acabaram sugerindo que eu fazia bem o vilão, então, acabei fazendo vários vilões. Às vezes um vilão engraçado, outras  vezes um vilão sem nada de humor, mas acabou ficando essa marca. Misael quebrou um pouco isso mas depois voltei a fazer os vilões (risos).

Lu: Um dos seus personagens que mais gostei foi o kaíque de “Da Cor do Pecado”. No começo eu sentia muita raiva do personagem , mas depois passei a simpatizar muito com ele. 

Tuca: É, o Kaíque mudou muito ao longo da novela. Mas acredito que ele nunca foi uma pessoa má, em essência. Ele era muito apaixonado por aquela mulher e não sabia dizer “não” pra ela. Sabia que estava errado e fazia mesmo assim. Mas depois ele amadureceu, mudou e se tornou uma pessoa melhor. 

Lu: Seu vilão mais recente foi o Belizário de “Amor de Mãe”. Confesso  que  achei que o amor traria mudanças ao personagem…

Tuca:  Assassinos também podem se apaixonar, demonstrar um lado doce. É um paradoxo. Um grande amor pode mudar a sua visão do mundo, mas você não deixa de ser quem é. Belizário foi capaz de amar por um período e demonstrou isso. Todos os personagens da novela tiveram uma outra face e isso é maravilhoso no texto da Manuela Dias. Não adianta mais fazer uma novela com personagens totalmente bons ou totalmente ruins, porque no fundo ninguém é assim e o público sabe disso.

Lu: Como você avalia o crescimento do teatro musical no Brasil?

Tuca: Acho ótimo, maravilhoso. Já fiz muitos musicais, gosto do gênero. Mas o teatro musica agora vai enfrentar uma barra pesada com essa crise toda. E isso é uma pena porque é um estilo que tem capacidade de empregar muita gente. Eu  já fiz musicais de empregar 100 pessoas ao mesmo tempo, é muita gente. Então,  eu acho legal a gente saber fazer musicais em formatos norte-americanos. Na verdade, apesar de todas as dificuldades,  somos o terceiro polo de produção de musical do mundo e isso não é pouca coisa. Ainda mais se você pensar que quando eu cheguei aqui no Rio, há pouco mais de 30 anos, a gente tinha muito poucos musicais e agora a gente tem um elenco que atua bem, canta bem, capaz de impressionar até os gringos que vem assistir. Acho muito legal e muito saudável que exista, não tenho preconceito contra nenhum tipo de teatro ou cinema. As pessoas criticam muito as comédias, mas eu acho ótimo porque as comédias formam público, trazem o público pra o cinema, gera dinheiro. Mas também, não pode só ter a mesma coisa, o público precisa ter opções. Só fico com medo porque agora vai ficar mais difícil ainda produzir alguma coisa, principalmente musicais que precisam de muito investimento, banda, orquestra, muita gente. 

Lu: Você sempre gostou de cantar ou se descobriu cantor através dos musicais?

Tuca: Eu sempre gostei de música, minha casa sempre foi cheia de música apesar de não ter nenhum músico. Meus pais gostam de música, minha casa tinha músicas o dia inteiro, nos finais de semana, eu sempre convivi com música, gostava de cantarolar. Mas a partir do momento que eu comecei a trabalhar com teatro, percebi que precisava ter um domínio vocal. Sempre fui afinado, mas fui trabalhando, aperfeiçoando com o passar do tempo. Quando percebi que o mercado do  teatro musical estava começando a abrir, investi mais, me preparei mais. 

Lu: Como foi homenagear Orlando Silva no palco?

Tuca: Tem dois momentos meus com Orlando Silva. O primeiro, foi há quinze anos atrás quando a gente fez o musical contando a história dele. A gente viajou muito, foram mais de 50 cidades no Brasil, inclusive fomos a Salvador. As pessoas pediam muito pra voltar com a peça mas era difícil, uma estrutura enorme. Então, procurei a minha produtora. A ideia não era remontar a peça mas, fazer um show. E eu queria muito cantar Orlando Silva de novo. E queria por vários motivos. Primeiro que o repertório é fantástico, pertence a uma época em que toda raíz da música brasileira atual está ali , tudo que está acontecendo agora no Brasil em termos de música, veio dali também. Grandes compositores como Pixinguinha e  Mário Lago, foram dessa época. Então, eu queria cantar de novo esse repertório e acho que nesse momento que estamos vivendo, esse momento de crise, a gente fica se perguntando o que a gente é e achando tudo uma merda. Então, é importante mostrar que existiu um gênio como Orlando Silva. Ele é um exemplo de super artista que já existiu nesse país. A gente não pode aceitar o lugar que estão tentando colocar os artistas, a gente é muito melhor do que isso. Eu gostei muito desse show, me sentia à vontade, me divertia. Não sou um cantor, se eu cantasse um terço do que Orlando Silva cantou, eu seria um cantor. Pra mim, ele foi um gênio que mudou a forma de interpretar no país, de interpretar o canto popular. Não podemos deixar que ele seja esquecido e é preciso trazer isso pra as gerações mais novas. 

Lu: O que você mais gosta e o que você não gosta na televisão brasileira?

Tuca: O tempo da televisão é muito rápido, quem está fora não percebe a velocidade daquilo. O ator grava muitas cenas em um espaço de tempo muito curto. Você grava uma cena chorando, sofrendo e a cena seguinte já está alegre, em uma festa, sorrindo, se divertindo. A carga dramática que você precisa puxar dentro de você pra fazer muitas vezes, 20 cenas no dia, é uma loucura! Se você pensar que um episódio de uma série americana leva uma, duas semanas pra ser gravado e que a gente faz seis no mesmo dia.. e eu acho isso fantástico, o trabalho do ator brasileiro é fantástico. O que acho ruim na televisão é que às vezes ela promove à estrela,  pessoas que ainda não tem essa maturidade. E são pessoas que até poderiam ter,  mas que acabam se perdendo no caminho por causa desse estrelato, essa loucura, esse glamour bobo que não leva a muita coisa e só serve pra vender uma imagem de encantamento que não condiz com a realidade porque, na verdade, o trabalho do ator é pesado, duro de fazer. 

Lu:  Você integrou o elenco de “Anos Rebeldes”, uma minissérie que se passava durante o período da ditadura militar. Você acha que a TV tem cumprido, ao longo do tempo, seu papel social e político ou continua influenciando o coletivo com opiniões laterais?

Tuca: Acho que há produções na TV brasileira que realmente tem um compromisso com a educação e o desenvolvimento do povo mas não se pode diminuir o valor de alguns programas que levam apenas entretenimento.

Lu: Outro personagem super marcante foi o “Zóio Furado” de Cordel Encantado, recorde de audiência no horário. Como foi participar do folhetim?

Tuca: A gente sempre entra em um trabalho esperando que seja sucesso, mas a verdade é que a gente nunca sabe o que vai acontecer. Tem casos que tem tudo pra dar certo e não dá, não existe uma fórmula. Mas, sinceramente, não esperava aquele estouro, acho que ninguém esperava. Tinha uma mistura de conto de fadas, com uma coisa brasileira, excelentes atores, bem colocados, bem escalados e era uma novela visualmente bonita. A direção da Amora também era muito boa. Tudo casou direitinho, foi um acerto total. 

Lu: Pra você qual é a maior virtude que um homem pode ter? 

Tuca: Ser honesto consigo. Sentir o que você realmente quer e seguir em frente. 

Lu: Como você lida com o sucesso e com o fracasso?

Tuca: Os dois são igualmente difíceis. Sendo que um lhe dá um certo prazer e outro não dá. O sucesso pode fazer com que você se perca completamente do seu caminho e isso era uma coisa que eu tinha muito medo quando comecei. O sucesso tem esse perigo. E o fracasso é amargo, dói. E o artista trabalha para o público, ele quer  fazer um bom trabalho, quer que as pessoas gostem dele. A gente quer ser amado, quer ser visto , quer que o público compre um ingresso pra ir te ver no teatro e quando não consegue isso, é duro. Mas ficam as lições, o aprendizado. As vezes o fracasso ajuda mais a pessoa crescer como artista do que o próprio sucesso. Só tem que saber lidar com essas duas coisas, são as duas faces da mesma moeda. 

Lu: Considera-se uma pessoa religiosa?

Tuca: Eu acredito que qualquer religião que pregue o amor está falando a mesma coisa, são apenas caminhos diferentes. Não frequento cultos, terreiros, mas tenho uma simpatia enorme pela mitologia africana, acho a mais bonita de todas . A dança, a comida, as cores me emocionam. Acho que todas as religiões são válidas desde que preguem a compreensão e o amor. 

Lu: Como você avalia os riscos da era digital?  

Tuca: Internet é uma ferramenta muito poderosa e perigosa. Se por um lado a gente consegue divulgar os nossos trabalhos e opinar pra o bem, por outro é arriscado. muita gente se aproveita do anonimato pra colocar pra fora toda frustração, racismo, machismo, homofobia, porque elas estão protegidas pelo anonimato. É um território pouco conhecido por todo nós. Às vezes,  acho que falo até mais do que deveria.  Mas não dá também pra você  ficar alheio a tudo que está acontecendo nesse pais. Não sou alienado. 

Lu: Se você pudesse modificar uma única coisa no Brasil, o que seria e por quê?

Tuca: A Educação, sem um governo totalmente comprometido com ela não iremos a lugar nenhum.

Lu: Quais são as reflexões que você tem tido durante a pandemia e qual será a primeira coisa que pretende fazer quando isso tudo passar?

Tuca: Acho que a pandemia está sendo uma ótima ocasião para se refletir sobre o cuidado com o próximo.  Quando isso tudo acabar pretendo abraçar muitooo!!!

Lu: Gostaria de abordar algum assunto? falar sobre planos profissionais, crise política? Esse espaço é seu.

Tuca: Eu costumo me pronunciar sempre a respeito dessas questões. Vivemos um momento político complicado e perigoso. É preciso estar atento aos sinais de retrocesso que alguns grupos tentam impor ao nosso povo.

Lu: O que o deixa verdadeiramente emocionado?

Tuca: Eu sou muito chorão, minha família é muito chorona. Eu choro vendo comercial (risos). Mas o que realmente me emociona no mundo de hoje , como está, é quando vejo uma pessoa fazendo algo por outra, sem nenhum interesse. É emocionante.

Lu: Uma frase

Tuca: Deus nunca dá o fardo mais pesado do que se possa carregar. 

Lu: Um lugar

Tuca: Rio de Janeiro.

Lu: Um sonho

Tuca: Ter um teatro.

Lu: Um hobby

Tuca: Colecionar. Tenho coleções de muitas coisas, amo colecionar. 

Lu: Uma viagem inesquecível

Tuca: Austrália.

Lu: Tuca Andrada por Tuca Andrada. 

Tuca: Se você souber, me avisa.

Galeria:

Lu Leal

Formada em Comunicação Social, atuou na produção do Programa “A Bahia Que a Gente Gosta”, da Record Bahia, foi apresentadora da TV Salvador e hoje mergulha de cabeça no universo da cultura nordestina como produtora de Del Feliz, artista que leva as riquezas e diversidade do Nordeste para o mundo e de Jairo Barboza, voz influente na preservação e evolução da rica herança musical do Brasil. Baiana, intensa, inquieta e sensível, Lu adora aqueles finais clichês que nos fazem sorrir. Valoriza mais o “ser” do que o “ter”. Deixa qualquer programa para ver o pôr do sol ou apreciar a lua. Não consegue viver sem cachorro e chocolate. Ama música e define a sua vida como uma constante trilha sonora. Ávida por novos desafios, está sempre pronta para mudar. Essa é Lu Leal, uma escorpiana que adora viagens, livros e teatro. Paixões essas, que rendem excelentes pautas. Siga @lulealnews

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