Lucinha Lins

Lucinha Lins

Ela é atriz renomada e coleciona personagens marcantes no cinema, na TV e no teatro. É super mãe, super avó e está sempre de braços abertos para o que a vida puder lhe oferecer. Escolheu ser feliz e irradia alegria e bom humor por onde passa. Foi com muito carinho que a atriz e cantora Lucinha Lins nos recebeu em sua casa, no Rio de Janeiro, para essa entrevista. 

Lu: Lucinha, quando a música entrou em sua vida?

Lucinha: Desde muito cedo. Mamãe toca piano, meu pai compunha uns sambas muito engraçados e também tocava pandeiro. Somos cinco filhos e costumávamos ir para Teresópolis cantando dentro do carro, pai, mãe e filhos tipo família dó ré mi (risos). A música sempre fez parte do ar que eu respiro, o rádio estava sempre ligado em casa. Inclusive, mamãe canta lindamente.

Lu: Quais são as maiores lembranças musicais da sua infância?

Lucinha: São muitas. Eu cantando, ouvindo discos de histórias infantis que tinham músicas. Eu cantava muita música portuguesa por causa das minhas babás que eram portuguesas. Eu cantava e fazia parte da bandinha da escola. Minha casa sempre teve as portas abertas para todos e um dia chegou lá em Teresópolis um rapaz que sentou no piano e resolveu tocar algumas músicas dele. Era o tal do Ivan Lins. A gente começou a cantar junto e tal. Foi o Ivan que, aqui no Rio de janeiro, me apresentou a um grupo de música de artistas maravilhosos que se encontravam toda sexta-feira na casa de Aloísio e Ruth (que mais tarde vieram a ser os sogros do Gonzaguinha). Ali  nasceu o MAU ( Movimento Artístico Universitário), um mostrava sua música para o outro e chegamos até a fazer festival interno.

Sabíamos que íamos apanhar, mas não imaginávamos o tamanho da surra. Esse festival foi um marco na minha vida. Eu não desejo a ninguém ser vaiado, é muito complicado, é uma rejeição séria. Não foi só uma vaia. Vaia todo festival tem e faz parte. Aquilo foi uma agressão, eu tive que sair escoltada pelo pelotão da polícia porque queriam me linchar.

Lu: Qual era a importância dos Festivais nacionais naquela época?

Lucinha: Toda. A grande meta de todos nós era chegar aos festivais porque eles eram algo fantástico que acontecia no país. Então descobri que realmente sabia cantar, as pessoas achavam a minha voz linda. E daquela sala de encontros, fomos para os estúdios de gravação. Eu cantava jingles, fazia coros. Através dos Festivais, muitos de nós (do MAU) conseguimos aparecer na música popular brasileira: Eu, Gonzaguinha, Cezar Costa Filho e por aí foi.

Lu: Você venceu o festival de 81, com a música “Purpurina” e o “Planeta Água” do Guilherme Arantes, ficou em 2º lugar. Quais foram as conseqüências deste Festival na sua trajetória artística?

Lucinha: Ganharmos foi uma “zebra” de festival porque a favorita era “Planeta Água”. Sabíamos que íamos apanhar, mas não imaginávamos o tamanho da surra. Esse festival foi um marco na minha vida. Eu não desejo a ninguém ser vaiado, é muito complicado, é uma rejeição séria. Não foi só uma vaia. Vaia todo festival tem e faz parte. Aquilo foi uma agressão, eu tive que sair escoltada pelo pelotão da polícia porque queriam me linchar. E isso foi muito sério, preocupou toda a turma do rádio, da imprensa, foi bastante grave e na época deu-se muita importância ao fato, foi motivo de acompanhamento e estudo. Só depois com calma que eu fui entender o que havia acontecido.

Lu: E como você reagiu a isso tudo isso?

Lucinha: Foram três dias sem dormir, um som muito louco na minha cabeça. Porém na época eu já estava ensaiando um espetáculo que veio a se chamar “Sempre Sempre Mais” com o Claudio Tovar e foi quando eu realmente coloquei as “manguinhas de fora” na minha vida. Na verdade, nem era para eu ter cantado nesse festival, fui “quebrar um galho” para Jane Duboc, que era quem iria cantar essa música. Mas ela teve uma viagem de última hora e não pôde ir cantar. Gerônimo Jardim era meu amigo e não tinha intérprete. Ele me pediu pra ir, eu fui e deu no que deu. Foram todos os microfones desse país direcionados para a pobre coitada da vaiada da Lucinha Lins. Todos os microfones eram abertos para mim e além de falar da vaia, eu aproveitava e falava do espetáculo que iria estrear meses depois (em Janeiro de 1982). Acho que eu tive a maior mídia gratuita que um artista já teve nesse país (risos) e mesmo sem querer, o fato acabou gerando muita curiosidade a meu respeito. Eu não desejo a ninguém uma vaia, mas não posso negar que as custas dessa vaia, tive uma promoção muito grande na minha carreira. Podia ter sido um tiro no pé, mas graças a Deus eu tinha um espetáculo para mostrar e foi considerado o espetáculo do verão carioca e um dos melhores do país naquele ano. “Sempre Mais” estreou no Rio em um dia muito grave, a minha trajetória é marcada por momentos extremamente dramáticos. Acho que a minha pureza, a minha vontade, a minha loucura diante do que eu queria para a minha vida fez com que eu caminhasse mesmo após tudo isso. No dia da estreia, morreu nada mais nada menos do que a maior cantora desse país: Elis Regina. Isso aconteceu no dia 19 de janeiro de de 1982. Eu fui  capa da revista Veja em um tempo  que mulher não saía na capa e a revista era a mais importante da época. O mundo queria saber como era o espetáculo com a loirinha vaiada do festival. Durante vários meses falou-se do espetáculo “Sempre Sempre Mais” sem parar. Graças a Deus o espetáculo tinha gabarito, competência e qualidade. E se transformou na mola mestra da minha vida, uma espécie de “sai da frente porque eu quero e vou passar”. 

Lu: Você participou de um filme para crianças que foi sucesso absoluto de bilheteria: “Os Saltimbancos Trapalhões”. Quais são as lembranças que guarda da gata Karina?

Lucinha: Eu fui para lá porque eu era bonitinha e precisavam de uma mocinha para o filme. Na época eu já fazia alguns comerciais para televisão mas não era atriz. Renato Aragão me convidou e lá fui eu para Hollywood mesmo. Nós começamos as filmagens pela Universal Pictures, nos Estados Unidos. Então foi tudo meio junto. Teve o festival, o filme e logo depois o espetáculo “Sempre Mais”. Eu não podia imaginar que a Karina iria se transformar em uma heroína infantil. O filme foi ao ar durante o período de férias escolares.  Quando as aulas voltaram, fui levar meus filhos na escola e tive que entrar no colégio meio que “escoltada” porque todas as crianças queriam falar com a Karina. Eram crianças no meu colo, montadas em cima de mim (risos). Foi uma coisa muito linda e muito importante que aconteceu na minha vida. Por causa da gata Karina, participei  também do espetáculo  de TV dos 15 anos de Os Trapalhões e foi um luxo! Trabalhar com aqueles quatro foi um dos melhores presentes que eu já recebi na minha vida. Foi muito, muito importante!

Lu: Recentemente houve uma montagem teatral de os Saltimbancos no Teatro das Artes  e também a regravação do filme. Você assistiu?

Lucinha: Sim. Saltimbancos é um clássico que sempre vai existir e sempre será encenado de alguma maneira. Isso me enche de alegria porque agora eu levo os meus netos para assistir (risos).

Ser atriz é um trabalho para o resto da vida, você aprende todos os dias, o estudo é contínuo. A minha intuição sempre foi muito boa e eu consegui fazer trabalhos maravilhosos. Eu não tinha consciência do talento que tinha, mas eu quis muito que aquilo acontecesse de verdade.

Lu: Como surgiu o convite para trabalhar em “Roque Santeiro”, um dos maiores sucessos na teledramaturgia brasileira de todos os tempos? Ainda hoje é lembrada como a Mocinha Abelha?

Lucinha: Eu fiz uma participação pequena em um Programa de TV chamado Plantão de Polícia. Aí Walter Avancini – ao qual devo muito- me chamou para fazer novela. Eu fugi dele como o diabo foge da cruz durante uns 4 anos. Até que finalmente topei o desafio e fui fazer uma minissérie chamada “Rabo de Saia”, que me rendeu o prêmio de atriz revelação. Em seguida veio Roque Santeiro e já entrei protagonizando ao lado de pessoas incríveis. Eu sou autodidata, não tenho nenhum curso de teatro. Oportunidades apareceram na minha vida e eu segui aproveitando. Pude perceber a estrela brilhando e segui o caminho, me dediquei muito, trabalhei sem parar. Tive perto de mim pessoas extremamente importantes e que tiveram paciência comigo, foram generosas e me ensinaram muito. Ser atriz é um trabalho para o resto da vida, você aprende todos os dias, o estudo é contínuo. A minha intuição sempre foi muito boa e eu consegui fazer trabalhos maravilhosos. Eu não tinha consciência do talento que tinha, mas eu quis muito que aquilo acontecesse de verdade. Quando a oportunidade aconteceu, agarrei com unhas e dentes, e segui fazendo, estudando, aprendendo, crescendo, sempre focada. Hoje, olhando para trás, questiono como não me acovardei diante de determinadas coisas. Por isso costumo dizer que diante das oportunidades, minha ingenuidade foi mola mestra. Medo? total! pânico, apavorada, tensa, suando. Mas talvez o próprio medo tenha me impulsionado e eu não parei mais.

Lu: A novela “A Viagem”, de 1994, abordou o tema Espiritismo. A sua personagem Stella, conversava com a irmã após a morte dela. Qual é a sua relação com a religião?

Lucinha: A Stella tinha uma sensibilidade, uma espécie de telepatia com a irmã, a Dinah ( interpretada pela Torloni). A gente tinha uma coisa muito forte que foi muito bem passada na novela. Nós duas conseguimos fazer isso crescer de maneira extraordinária. Mas não tenho relação com religião nenhuma. Eu nasci na igreja católica e acho importante você ter algum contato, algum ensinamento seja qual for a religião. Acho importante isso na vida de um ser humano porque isso faz com que a pessoa perceba o significado do outro, do amor ao próximo, “ o respeitar o próximo como a ti mesmo”. Eu acho esse o maior  fundamento de todos e você se depara com o sentimento da fé que deve ser cultivada dentro de cada um. Eu sou daquelas que acredita que a fé remove montanhas, mas não gosto de igreja nenhuma. Acho que elas abusam do seu poder, acho que a ignorância é cultivada e não é esclarecida como deveria ser dentro das igrejas. Nós somos um país muito pobre, muito ignorante e levar nosso povo a atitudes absolutamente absurdas, arcaicas, burras, medíocres é o que vejo de um modo geral, acontecendo com muitas igrejas e lamento muito.  E a ignorância cultuada por alguém que tem o poder nas mãos, não nos ajuda a crescer. Ao contrário, a gente fica estagnado, com pensamentos absurdos. Eu fico enojada. Não é possível você ligar e ver um colírio sendo vendido com a promessa de que quem usá-lo irá enxergar Deus melhor. E tem gente que compra. Como é que quem usa de má fé desse jeito não vai preso? Eu não entendo. Eu não tenho nada contra o dízimo, por exemplo. Mas tem pessoas que são levadas a dar a roupa do corpo. Ele não tem pra comer, mas dá a igreja porque estará abrindo uma porta no reino dos céus. Eu fico doente com isso! Sei que a igreja faz coisas ótimas e  tem um lado bom de ponto de encontro, de reunião, de lamentação, de alegria, de tudo. Mas tem um outro lado medíocre, mentiroso, absurdo.

 Ser atriz me ensinou a entender melhor o dom da palavra, a entender melhor o que eu estava dizendo enquanto cantava. Se a minha alma não entendesse de música, não conseguiria interpretar.

Lu: Qual trabalho mais lhe deixou saudade?

Lucinha: Ah…vários!!! Não existe exatamente saudade, mas fica a lembrança. E uma lembrança é extremamente importante. Alguém me escolheu para fazer aquilo e eu sou extremamente grata por todas as oportunidades. Eu podia não ter dado conta, podia ter derrubado completamente a intenção daquele convite, a personagem podia não ter crescido, ido pra frente. Mas graças a Deus consegui corresponder as expectativas que foram depositadas em mim. E fiz parte de coisas muito importantes dentro da dramaturgia. Já tive indicação duas vezes de melhor atriz de teatro. Então, existem muitas coisas que aconteceram para mim que são inesquecíveis. Mas não é exatamente saudade, pois aquele trabalho já foi feito. E quero outros, cada vez mais.

Lu: Tem alguma coisa na sua carreira ou na sua vida pessoal que você ainda sonha realizar?

Lucinha: Ah eu quero tudo! (risos). Quero tanta coisa, Lu!  Quero muito fazer cinema. Eu fiz muito pouco cinema no meu país. Eu adoraria entender, saber mais sobre cinema. Trabalhar para criança foi muito importante mas eu queria fazer mais.  O canto também ficou na gaveta por um tempo pois as oportunidades como atriz foram aparecendo, mas  um trabalho completa o outro. Ser atriz me ensinou a entender melhor o dom da palavra, a entender melhor o que eu estava dizendo enquanto cantava. Se a minha alma não entendesse de música, não conseguiria interpretar. Existe uma música aqui dentro que me faz funcionar, que me guia, que me faz ouvir melhor. Não sei onde a cantora termina para dar espaço a atriz, mas tem uma coisa muito importante que o Tovar fala sempre: ” Da vida, eu quero a vida e o que ela puder me dar”. Eu sou uma pessoa que está sempre de braços abertos para o que der e vier. Quando eu era criança, era enlouquecida pela canção do Pinocchio que diz “o importante é você estar atento quando essa estrela brilhar”. 

Lu: Você marcou a minha infância através das músicas infantis. Costuma cantá-las para os seus netos?

Lucinha: Canto. Mas também canto as cantigas de roda da minha infância. Quando eles viram o filme dos Trapalhões perguntaram: É você, vovó? E isso é muito emocionante, muito prazeroso. O Tito, que é o mais velho, canta muito também com a outra avó, a vovó Tetê ( eu sou a vovó Lulu). Ela cantava pra ele “Minha jangada vai sair pra o mar… ” do Caymmi. Com dois anos e meio ele já cantava essa música inteira. E com uma voz linda, afinada. A música com certeza faz parte do dia a dia da minha família.

Lu: Eu acho que isso aí está no DNA (risos)

Lucinha: Deve estar mesmo, você tem toda razão. Está no DNA dessa família inteira (risos).

Lu: Há alguns anos atrás, entrevistamos o seu filho Cláudio (clique AQUI e confira) e ele falou bastante sobre a delícia de atuarem juntos. Como funciona a parceria em cena? Costumam “trocar muitas figurinhas”?

Lucinha: O Claudio é o meu filho mais velho e a nossa parceria é sempre tranquila. É uma troca. Independente de trabalharmos juntos, nós somos extremamente críticos uns dos outros aqui em casa. Numa boa! Então é assim: “Mãe, vi uma cena sua ontem na novela, péssima” (risos). Isso é falado normalmente. Ou então, pede-se ajuda ao outro por causa de algum momento, de alguma cena. Ou sai um “cuidado, você está usando seu corpo errado”, ou “você está falando feio”. Quando eu tenho algum trabalho novo, alguma coisa acontecendo, tenha certeza que vai ter um churrasco, algum almoço, algum encontro em família. Isso é fundamental.

Lu: Como é a Lucinha mãe?

Lucinha: Me tornei mãe aos 19 anos e a maternidade é um divisor de águas na vida da pessoa. A gente passa a enxergar o mundo, a vida e as pessoas de uma outra forma. A gente amadurece e percebe coisas que não percebia antes.  Só quem é mãe para entender o que estou falando. E tem alguma coisa mais importante do que o sorriso de um filho? de um neto? Não tem! O que mais quero na vida é vê-los felizes. Quando meu primeiro filho nasceu, prometi pra mim mesma que faria de tudo para vê-lo feliz. Fiz essa promessa com todos os meus outros filhos e faço de tudo até hoje para cumprir. Claro que acontecem coisas tristes na vida deles, mas sempre terão a mãe e avó para ampará-los, oferecer o colo e o ombro amigo. Tenho minha consciência tranquila em relação a todos eles. As vezes vejo pais colocando filhos para fora de casa, maltratando, humilhando. Deve ser muito triste para um pai ou uma mãe saber que é motivo da infelicidade de um filho. Não consigo entender isso. Todo mundo erra. Eu erro, meus filhos erram, mas a gente tem que aprender com os erros e não ficar repetindo ou maltratando de ninguém.  No meu coração, graças a Deus, não tem espaço para o rancor.  Ainda que esteja muito magoada, não vou saber não falar com a pessoa porque fiquei aborrecida. Eu acredito que a maturidade acalma.

Lu: Como é a Lucinha avó?

Lucinha: Uma maravilha! Me emociono com isso todos os dias! Eu estou com 65 e fui avó aos 55. Isso é fantástico porque eu quero sempre brincar com eles e ainda tenho bastante energia para isso. Quero que  tenham comigo uma cumplicidade bacana, quero que saibam que podem contar com a vovó. Sempre digo que quando eles fizerem 15 anos vão ganhar a chave da casa da vovó. Quero que eles frequentem a minha casa sem o menor pudor. Quando eles tiverem 18, 20 anos, aquele amor afetivo, aquela confiança que eu espero conseguir ter, vai estar gravada no coração, na alma e na memória. Aí eu serei uma vovozinha velhinha e eles serão meus amigos. Esse é o sonho da minha vida, como avó. Sou uma avó muito presente, tenho cadeirinha no meu carro, levo para o colégio, eles vêm dormir comigo. Quando não estão se alimentando direito, a vovó ataca, brincamos, cozinhamos juntos e comemos com brincadeiras. Sopa de pipoca, por exemplo. Coisas que eu invento, a comida vira um jardim espelhado em travessas, onde o arroz é areia, o feijão é terra, o couve-flor é a árvore. E nós vamos ter que fazer uma grande plantação para poder crescer forte. O que você prefere, uma criança que vai dormir sem comer ou uma outra que come uma bacia de pipoca com achocolatado? milho alimenta! isso pode substituir um jantar, não precisa ser comida todos os dias. A ideia é inventar coisas. Fora isso, tem o acampamento no quarto da vovó e do vovô. Brincar é fundamental!

Lu: Por ser essa super avó, imagino que não precisou fazer laboratório da vovó Zuzu de “Vitória”. Mas como foi fazer uma pessoa com Alzheimer?

Lucinha: É um presente pra qualquer ator fazer um papel como aquele, mas é muito assustador. Alzheimer é uma doença terrível que vai pegando a pessoa aos poucos. O brilho do olhar da pessoa vai embora porque os sentimentos vão embora junto com as lembranças. É muito sério e muito triste.

Lu: Você disse que fez pouco cinema e que gostaria de fazer mais. Mas sente mais prazer na TV ou no teatro?

Lucinha: Ah, Lu! são amores tão diferentes! A televisão limita o seu corpo, limita o lançamento da voz e o teatro expande. Mas ambos são fundamentais para mim. É maravilhoso fazer os dois juntos!

Lu: Você é casada há muitos anos com Claudio Tovar.  Existe algum segredo para um relacionamento duradouro?

Lucinha: Estou casada com Cláudio Tovar há 35 anos e ele é o alicerce da minha vida. Eu tive muita sorte, tive dois amores na minha vida. Fui casada com Ivan Lins e foi ele quem me levou a cantar profissionalmente. Fomos casados 11 anos e tivemos filhos lindos e maravilhosos. Depois casei com o Tovar e somos muito felizes. Não sei se tem um segredo, até porque, é claro que temos nossos desentendimentos.  Mas nos admiramos e somos muito amigos. A gente conversa muito, tem muito assunto.  Ele é o grande artista da minha casa,  o considero uma espécie de gênio. É um homem muito querido, muito respeitado no meio artístico. Ele é cantor, produtor, cenógrafo,  figurinista extremamente premiado e um ator fantástico.

NJ: Ter a mesma profissão, trabalhar juntos, ajuda no relacionamento?

Lucinha: Olha, eu acredito que sim porque depois de tantos anos de casados, posso dizer que deu certo.  Minha casa é muito misturada. Assim como a gente fala da compra do mês, do pagamento, do dever de casa das crianças, você fala do ensaio,  da música nova que chegou e você tem que decorar, da viagem que vai ter, da turnê não sei das  quantas, de quem foi assistir a peça naquele dia, do desenho do figurino… Essa sala já se transformou em ateliê inúmeras vezes. É tudo junto! É a nossa vida! É assim que a gente consegue crescer, entender a vida, discutir coisas. Essa é a nossa cumplicidade. Nós somos muito companheiros e quando um está meio pra baixo, o outro levanta a bola. Essa troca existe. Problemas só não tem quem não conta. Eu poderia desfilar um rosário de lágrimas aqui. Mas não é essa a minha intenção e eu não preciso fazer isso. O bom da vida é o que vale a pena. O hoje é o momento mais importante porque traz ensinamentos e é importante guardá-lo de forma positiva e não alimentá-lo de forma negativa. Se o passado ronda o presente, ele atrapalha  e com isso você não consegue chegar no seu futuro. O futuro só pode realmente acontecer se o seu presente estiver bem cuidado. Não tenho dúvidas que hoje é o melhor momento da minha vida. As lembranças são boas para serem comentadas. Acabamos de falar de trabalhos que eu fiz, que são tão importantes pra mim e que sempre irão alimentar a minha vida de alguma maneira. Mas eu não preciso dizer o quanto chorei para fazer esses trabalhos. A vida é simples, a gente que complica.

Lu: Como você cuida do corpo? Costuma ter algum cuidado especial com a alimentação?

Lucinha: Mais ou menos. Eu como de tudo, mas sou cuidadosa.  Eu como tudo o que é verde, além de  legumes, verduras, frutas, carnes magras, pouco açúcar, pouco sal… minha alimentação sempre foi muito saudável. Como eu cozinho, existe uma preocupação com isso, mas não abro mão do churrasco em família, de reunir todo mundo. 

Lu: Você é mais do mar, do ar ou da terra?

Lucinha: Do mar. Adoro as montanhas também mas o mar é fundamental pra mim. Eu moro perto da praia e não lembro a última vez que dei um mergulho no mar. Mas ele está ali, eu sinto o cheiro dele e à noite ouço as ondas batendo. Eu preciso ver o mar, saber que ele está perto. Quem mora no Rio de Janeiro sabe a importância do mar. Eu morei em São Paulo durante três anos e foi aí que descobri a falta que o mar me fazia e o significado dele pra mim. Passar pelo mar, olhar o mar, saber que ele está ali me faz um bem extraordinário.

Lu: O que costuma escutar no carro?

Lucinha: Muita música brasileira. tem umas seleções que a minha filha faz que mistura tudo (risos). A música antes de mais nada é um estado de espírito. Tem dias que você está doida por um rock e outros que o rock te incomoda.  Então, música é momento, é estado de espírito, é cantar junto ou simplesmente ouvir. Adoro música clássica também. Assisto muito esses programas estilo “The Voice” e adoro. Como tem gente talentosa nesse mundo! As vezes ouço três vezes seguidas o mesmo disco. Música me faz muito bem!

Eu acho que o ser humano tem obrigação de querer ser feliz. Se alguma coisa não está te fazendo feliz é porque não serve para você. Afaste-se! Fatos tristes acontecem, isso é normal e fundamental para o nosso  crescimento. Mas não sempre, sabe? Ninguém merece uma vida triste.

Lu: Você tem esperança de um país melhor para os seus netos?

Lucinha: Claro!!! Outro dia alguém me perguntou, você não tem vergonha de ser brasileira? Claro que não tenho!! Vergonha de ter nascido nesse país lindo, maravilhoso? nunca! Sinto tristeza por  colocarmos o poder nas mãos de incompetentes.  Mas vergonha é outra coisa. Mas acho que muita coisa boa ainda vai acontecer diante de tanta lama, de tanto lixo. O brasileiro mudou, não é mais um cordeiro que abaixa a cabeça. O povo está mais unido, indo para as ruas, cobrando resultados. Eu peguei a ditadura, mas hoje já posso votar. Coisas importantes já aconteceram e eu espero que continuem acontecendo. A minha geração ainda luta por um país melhor junto com as gerações mais jovens e acho que essa guerra quem ganha é o povo brasileiro. 

Lu: Você está em turnê com o espetáculo “Palavra de Mulher”que é uma revisita ao universo feminino a partir das canções de Chico Buarque.  Eu nem consigo imaginar a dificuldade pra escolher esse repertório uma vez que a obra de Chico é tão extensa e tão relevante.

Lucinha: Não foi tão difícil assim porque nós nos deixamos levar pelo que já tínhamos feito sobre o Chico. Eu já tinha feito “Saltimbancos”, “Ópera do Malandro” e  ” o Corsário do Rei”. Então, eu fiquei nesse universo, da minha vivência de trabalhar sobre o Chico e com o Chico. A Tânia fez o mesmo e a Virgínia tem na veia e na trilha sonora da vida, como todas nós, a obra de Chico Buraque de Holanda. E isso foi dando a cara desse Cabaré que a gente foi montando no palco. É um show de música e uma delícia de fazer. Impossível uma mulher que não se identifique, não se emocione e não saia cantando junto.

Lu: Uma mania

Lucinha: Eu conto as coisas. Sou capaz de estar conversando com você, olhar para essa mesa e contar quantos elementos eu tenho na minha frente. Por exemplo, eu não posso ficar em um lugar que tenha papel de parede estampado. Eu conto os elementos do papel e imagino imagens e figuras na minha mente (risos).

Lu: Uma frase

Lucinha: Ser feliz! Sabe por que, Lu? Porque ninguém nasceu para o fracasso. Todos nós nascemos para o sucesso. Mas não é fácil alcançá-lo. Eu não estou falando do sucesso de uma artista, não é isso. Estou falando do sucesso como ser humano. Mas a busca do sucesso é um trabalho individual. É você que tem que querer e buscar a felicidade em sua vida. Não importa a cor, a classe social, a orientação sexual, a religião. Tem uma parte na vida de todos nós que é igual: os desejos, os sonhos, as vontades, as dúvidas.  Eu acho que o ser humano tem obrigação de querer ser feliz. Se alguma coisa não está te fazendo feliz é porque não serve para você. Afaste-se! Fatos tristes acontecem, isso é normal e fundamental para o nosso  crescimento. Mas não sempre, sabe? Ninguém merece uma vida triste.

Lu: Lucinha, muito obrigada! Eu queria muito dizer uma coisa antes de encerrar. Quando era adolescente, encontrei você em um hotel em Salvador, queria ter me aproximado para dizer isso, mas na época fiquei com vergonha. Mas hoje não vou perder a oportunidade (risos). Você marcou minha vida com a música da bailarina. Minha mãe colocava e eu ficava dançando, treinando os passinhos de ballet. Mesmo já crescida, nunca deixei de escutá-la. Inclusive ouvi durante toda a minha gravidez e hoje  coloco para minha filha escutar e ela adora. Espero que a canção faça tanto sentido pra ela como faz pra mim.

Lucinha: Aiii Lu! que lindo! Que bom que está falando isso agora. Pronto! já ganhei o meu dia hoje. Viu que hoje é o dia mais importante das nossas vidas? A vida é bela demais! Essa música marcou uma época. Essa bailarina ainda existe dentro de você e de todas as meninas que cresceram e se tornaram mulheres escutando essa música.

Lu: E é isso, né? Se a gente cair, conta até 10 pra respirar, levanta e dá a volta por cima.

Lucinha: E essa lenga lenga toda recomeça… E vamos nessa!  Engraçado, cantei tanto essa música e prestei atenção na profundidade da letra agora, com você. Obrigada, meu amor!

Lu: Obrigada você por essa entrevista linda. Confesso que estar aqui com você é um sonho realizado. Ta aí a explicação para esses olhos cheios de lágrimas agora. Mas são lágrimas de emoção e muita alegria!

Lucinha: Que linda que você é, Lu! Tenha certeza que o prazer é todo meu. Alegria enorme tê-los aqui em casa para esse papo tão incrível. Continue essa delicadeza que você é e muito sucesso pela caminhada. Escolha sempre ser feliz. Dá aqui outro abraço!

Galeria:

 

 

Lu Leal

Formada em Comunicação Social, atuou na produção do Programa “A Bahia Que a Gente Gosta”, da Record Bahia, foi apresentadora da TV Salvador e hoje mergulha de cabeça no universo da cultura nordestina como produtora de Del Feliz, artista que leva as riquezas e diversidade do Nordeste para o mundo. Baiana, intensa, inquieta e sensível, Lu adora aqueles finais clichês que nos fazem sorrir. Valoriza mais o “ser” do que o “ter”. Deixa qualquer programa para ver o pôr do sol ou apreciar a lua. Não consegue viver sem cachorro e chocolate. Ama música e define a sua vida como uma constante trilha sonora. Ávida por novos desafios, está sempre pronta para mudar. Essa é Lu Leal, uma escorpiana que adora viagens, livros e teatro. Paixões essas, que rendem excelentes pautas. Siga @lulealnews

1 Comment

  1. Avatar
    Fabiana
    23 de abril de 2020 at 15:32 Reply

    Que entrevista linda! Que leveza, que paz, que artista!! Feliz de ler e conhecer um pouquinho mais dessa mulher tão especial. Obrigada!

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